As vezes acho que nós, cidadãos com nenhuma deficiência, nós é que somos inclusão, aqueles que dizemos que são inclusão, se sociabilizam muito bem entre nós, não deveriam ser tratados como inclusão quando possuem outras habilidades e nós sempre estamos sub-julgando-os.
Está na hora de dar um basta nesta sociedade tão diferenciada que nos tornam inclusão das inclusões.
Você pode
Você pode curtir ser quem você é, do jeito que você for, ou viver infeliz por não ser quem você gostaria.
Você pode assumir a sua individualidade ou reprimir seus talentos e fantasias, tentando ser o que os outros gostariam que você fosse.
Você pode produzir-se e ir se divertir, brincar, cantar e dançar, ou dizer em tom amargo que já passou da idade ou que estas coisas são fúteis e não ficam bem para pessoas sérias e bem situadas como você.
Você pode olhar com ternura e respeito para si próprio e para as outras pessoas ou com aquele olhar de censura, que poda, pune, fere e mata, sem nenhuma consideração para com os desejos, limites e dificuldades de cada um, inclusive os seus.
Você pode amar e deixar-se amar de maneira incondicional, ou ficar se lamentando pela falta de gente à sua volta.
Você pode ouvir o seu coração e viver apaixonadamente ou agir de acordo com o figurino da cabeça, tentando analisar e explicar a vida antes de vivê-la.
Você pode deixar como está para ver como é que fica ou com paciência e trabalho conseguir realizar as mudanças necessárias na sua vida e no mundo à sua volta.
Você pode deixar que o medo de perder paralise seus planos ou partir para a ação com o pouco que tem e muita vontade de ganhar.
Você pode amaldiçoar sua sorte ou encarar a situação como uma grande oportunidade de crescimento que a vida lhe oferece.
Você pode mentir para si mesmo, achando desculpas e culpados para todas as suas insatisfações ou encarar a verdade de que, no fim das contas, sempre você é quem decide e tipo de vida que quer levar.
Você pode escolher o seu destino e através de ações concretas caminhar firme em direção a ele, com marchas e contramarchas, avanços e retrocessos ou continuar acreditando que ele já estava escrito nas estrelas e nada mais lhe resta a fazer senão sofrer.
Você pode viver o presente que a vida lhe dá ou ficar preso a um passado que já acabou (portanto não há mais nada a fazer) ou a um futuro que ainda não veio ( e que portanto não lhe permite fazer nada).
Você pode ficar numa boa, desfrutando o máximo das coisas que você possui ou se acabar de tanta ansiedade e desgosto por não ser ou não possuir tudo o que você gostaria.
Você pode engajar-se no mundo, melhorando a si próprio e por conseqüência melhorando tudo que está a sua volta ou esperar que o mundo melhore para que então você possa melhorar.
Você pode celebrar a vida e a energia universal que o criou ou celebrar a morte com medo e aterrorizado com a idéia do pecado e punição.
Você pode continuar escravo da preguiça ou comprometer-se com você mesmo e tomar atitudes necessárias para concretizar o seu plano de vida.
Você pode aprender o que ainda não sabe ou fingir que já sabe tudo e não precisar aprender mais nada.
Você pode ser feliz com a vida como ela é ou passar todo o seu tempo se lamentando pelo que ela não é.
A escolha é sua e o importante é que você sempre tem escolha.
Pondere bastante ao se decidir, pois é você que vai carregar, sozinho e sempre o peso das escolhas que fizer.
Autor desconhecido

Propus então que ela escrevesse “gato” o que ela se negou a fazer. Que escrevesse então o que sabia o nome da mãe, o nome do pai e aproveitou o A do Zeca e escreveu as vogais. Quando foi escrever o nome irmão não conseguiu porque quis fazer com letra manuscrita. Então reclamou que não sabia fazer letra emendada. Argumentei que não precisava fazer aquela letra. Poderia fazer separada. Ela contra-argumentou que na escola é letra emendada. Vi logo que o problema da escola era esse ela tinha que fazer letra manuscrita coisa que ela não conseguia face o seu problema. Depois escreveu os números, nomeando-os, e, quando fez o sete o fez virado, apagou e pediu que eu fizesse, pois não era assim.

Nota-se a confusão de Bruna quanto ao traçado das letras.
À partir daí, Bruna deslanchou e em 24 de agosto, fez seu primeiro ditado com frases, pois fazia as palavras e nas frases se perdia


CANIBAL, Maria Júlia Berta. Revista do GEEMPA N° 4 – Julho/1996 – Porto Alegre.
Contribuição
PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE ITAPEVI
SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO E CULTURA
ESTADO DE SÃO PAULO
Núcleo Especializado de Educação Inclusiva (NEEI)
Sorriso
Na luz daquele
Sorriso
Vislumbrei
Um encanto
Imaginário
Jamais encontrado
Da alegre menina,
Imagem
Pura e
Dourada
Do arco-íris
Da vida
Num mundo
De ilusões
Onde a imaginação
Jamais alcançaria
A consciência
Do amanhecer
Ao despertar
Para o aprender
Maria Júlia Canibal
A História de Bruna
Maria Júlia Berta Canibal
"Meu envolvimento com a história de Bruna começa num corredor de escola, onde fui abordada por uma colega que me trazia o seguinte laudo:
Propósito: Bruna
Sexo: F
Idade: 7 anos e 1 mês
O exame psicológico ao qual se submeteu Bruna revela, entre outros aspectos evolutivos de sua personalidade, o que segue:
1. Constata-se um acentuado retardamento do desenvolvimento da inteligência. Enquanto a idade cronológica é de sete anos e um mês, a correspondente idade mental é de somente quatro anos e nove meses. Há, portanto, um déficit do desenvolvimento da inteligência de 28 meses, ou seja, de 2 anos e 4 meses. O quoficiente intelectual não vai além de 67, o que configura um característico quadro de debilidade mental. Em sentido prognoscitivo dá razões para se esperar com certo otimismo, que o propósito continue a evoluir no aspecto intelectual de sua personalidade, de modo a possibilitar a sua alfabetização no espaço de alguns anos e de conseguir, talvez, alguma aprendizagem escolar mais elevada.
A colega, Ana Maria, mostrava-me o laudo, e contava que a mãe estava desesperada e o pai indignado, pois a filha deles não era débil mental.
A história de bruna começa quando, no sétimo mês de gravidez, a mãe entra em trabalho de parto, com fortes dores na região abdominal. Tratava-se de uma infecção, uma peritonite, de diagnóstico realizado após dias de ansiedades e dúvidas. O parto então foi induzido, e Bruna nasceu, de parto normal. A situação dela era bastante séria pesava apenas 1, 720 kg , chegando a pesar 900g. Ela teve uma lesão neurológica causada por um vaso sanguíneo no cérebro. Por todos esses problemas, necessitou de respiração artificial e ficou na incubadora por dois meses.

Bruna tinha supervisão neurológica para acompanhar seu desenvolvimento. A lesão atingiu o lado direito do cérebro, motivo pelo qual ela tem dificuldade do lado esquerdo do corpo e pouca destreza na mão. Sua dificuldade maior é na movimentação da perna e do pé. Aos três anos, submeteu-se a uma cirurgia de alongamento do tendão da perna esquerda, motivo pelo qual faz fisioterapia. Bruna também necessita usar óculos, coisa que não gosta muito, e razão suficiente para os óculos estarem sempre quebrados. Certa vez, os pais demoraram a providenciar óculos para bruna, apesar de eu cobrar isto deles diariamente Foi então que perdi a paciência, e com a porta cheia de mães esperando os filhos chamei o pai e dei-lhe uma bronca. Era a última vez que eu iria pedir, pois a Bruna não enxergava sem os óculos e que estava demorando muito. Tudo isso foi dito em tom de grande seriedade e ele me dava explicações. Quando terminei, ele só falava: “Tá bem professora. As crianças deram uma gargalhada coletiva, inclusive a Bruna disse: “Puxa que bronca tu levou hein !!!”. Aí, foram as mães que riram”.
A partir deste dia, quando eu o chamava, a exclamação era sempre a mesma: “Nossa, o que será que eu fiz agora!” Como resultado disso hoje somos todos muito amigos e nos queremos muito bem.
Bruna estava freqüentando uma primeira série em uma escola particular. Como ela não estava acompanhando a turma, foi pedida pela escola uma avaliação psicológica feita na instituição a que a escola pertencia.
Quando os pais leram o laudo, entraram em desespero, pois, depois de tudo o que haviam passado depois de terem conseguido socializar Bruna com todos os seus problemas eles não aceitavam a idéia dela ser débil mental.
Devo ressaltar aqui que Bruna nunca deixou de ter acompanhamento médico e fazer fisioterapia semanalmente
E o laudo continuava assim:
2. Seria de desejar que Bruna pudesse freqüentar uma escola especial na qual atuam professores especializados para trabalhar com alunos deficientes. Nessas condições há um melhor atendimento à criança com problemas deste tipo e, por conseguinte, pode-se esperar melhores resultados em sua aprendizagem. Mas esta é uma decisão que deverá ser tomada pelos pais da menina.
3. Afim de não traumatizar a criança pela perda repentina de amigos na escola que atualmente freqüenta, é aconselhado que ela permaneça este ano escolar (1990) na mesma escola e na mesma turma onde consegue se relacionar satisfatoriamente com outras crianças e com outros professores. Permitir que acompanhe as aulas sem exigir dela o mesmo rendimento dos outros companheiros de classe porque, em realidade sua capacidade de compreensão é igual à de crianças com 4 anos e 9 meses de idade.
4. Sendo que a criança freqüenta a escola não unicamente para adquirir conhecimentos científicos e para treinar habilidades, mas também para oi adequado encaminhamento de sua socialização, é desejável que Bruna permaneça na escola que freqüenta mesmo se tiver que repetir até mais uma vez o mesmo ano antes de passar para o ano seguinte. Mas este é um problema a ser resolvido pela escola. A idéia de permanência de Bruna na escola que ora freqüenta seria uma solução intermediaria até que os pais encontrassem meios de colocá-la em uma escola especial, a solução ideal para o caso, como é dito acima no item 2.
Como se vê, aconselharam deixar Bruna na escola. A professora, no entanto, ao tomar conhecimento do laudo, simplesmente abandonou Bruna em sala de aula. Já que ela era débil mental e necessitava de atendimento especial, e que não iria aprender, a professora passou a dar atenção para os demais e esqueceu Bruna. A mãe dizia: minha filha está abandonada em sala de aula.
Como vimos, esse laudo data de 28 de abril. O pai, não conformado, procurou outro psicólogo e pediu nova avaliação, que foi feita em 8 de maio, a qual resumidamente dizia:
Em nível de desenvolvimento intelectual, detectou-se que a idade mental de Bruna equivale à sua idade cronológica, exatamente 7 anos de idade mental. Apenas em algumas áreas, verificou-se que a menina encontra-se classificada como aprendiz lenta e que não foi considerada como retardada mental porque é capaz de ter uma escolaridade de currículo normal através de uma seqüência mais lenta do que a média de crianças. Pode ser educada em classe comum havendo nessa, adaptação do programa de ajustamento devido a sua capacidade de aprendizagem mais lenta. Quando adulta será capaz de sustentar-se, isto é, tornar-se independente ajustada no ponto de vista.
A idade gráfica de Bruna corresponde a 6 anos de idade. Sua percepção viso motora está na faixa de 5 anos e 11 meses. Desvia-se um pouco mais de 1 desvio padrão da média esperada para sua cronológica. Seu desempenho escolar equivale a uma criança em início de 1º grau. Apresentou 10 indicadores significativos e 3 indicadores altamente significativos de disfunção cerebral. Isto não quer dizer que haja obrigatoriamente um quadro de lesão cerebral, e mesmo que exista essa possibilidade, o nível intelectual de Bruna que é bom, compensará e equilibrará essa deficiência.
Impressão diagnostica: aprendiz lenta com dificuldade nas funções percepto viso motoras.
Prognóstico: favorável, uma vez que perceba-se colaboração dos pais quanto ao trabalho realizado com Bruna.
Programação terapêutica: reforço pedagógico e acompanhamento psicológico.
Conclusão: aconselha-se não interromper o ano letivo de Bruna, uma vez que está tem-se esforçado para acompanhar a turma. Paralelamente à classe normal deve-se colocá-la em treinamento com uma reeducadora especializada, a fim de serem trabalhadas as suas dificuldades perceptuais, visuais e motoras. O potencial da menina é muito e devem ser explorados todos os aspectos positivos que esta venha a apresentar. Com apoio de uma equipe interdisciplinar, a Bruna poderá superar grande parte de suas dificuldades e conseguir se realizar tanto pessoal quanto profissionalmente.
Podemos observar que este laudo contradiz o outro quanto à idade cronológica e mental, não falando de QI em termos de medida.
O primeiro laudo fala em um característico quadro de debilidade mental. O segundo laudo fala que em apenas algumas áreas verificou-se que a menina encontra-se classificada com aprendiz lenta e que não foi considerada como retardada mental porque é capaz de ter uma escolaridade de currículo normal através de uma seqüência mais lenta do que das outras crianças.
Os pais diante destas contradições se viram perdidos e resolveram procurar uma solução que ajudasse Bruna.
Mas onde? Como? Quem procurar?
Foi então que Ana Maria falou em mim para eles. Ela também não aceitava o fato de Bruna ser débil mental, pois convivia com ela. Bruna gostava de ir até o apartamento dela para conversar com sua filha, que era mais velha. De sua janela ela via Bruna brincando com as outras de igual pra igual. Me pediu então que visse Bruna, afirmando que só eu seria capaz de ajudá-la. Essa afirmação de Ana me deixou surpresa, pois ela era uma professora bem convencional, e vivia criticando meu trabalho.
Autorizei, então, Ana Maria a falar coma mãe e o pai e me trazerem Bruna.
No dia 4 de junho Bruna me foi apresentada por uma mãe e um pai em desespero e com uma expectativa ansiosa. Recebi os três e pedi para ficar a sós com Bruna dizendo que eles fossem conhecer o colégio. Dei a mão para Bruna e fomos para a biblioteca. Na época ela era ainda muito pesadona jogava a perna com força para caminhar parecia um chumbo. Mas foi conversando comigo, muito à vontade se eu era professora, para que turma eu dava aula como era aquele colégio. Já na biblioteca eu perguntei se ela estava no colégio, qual o nome e em que serie estava, e o que ela gostava de fazer. Ela disse que gostava de escrever, mas não conseguia fazer letra emendada.
Perguntei se ela queria ouvir uma história ao que ela entusiasticamente concordou.
Li o livro O Gato e o Jacaré. A leitura foi acompanhada com grande interesse e ela própria virava as páginas para ver o que iria acontecer. Depois de ler pedi que ela me contasse o que havia lido e ela me contou com detalhes folheando o livro novamente.
Pedi que escrevesse o seu nome. Ela o fez com letra maiúscula, nomeando as letras e colocou ainda o numero de letras do nome.
Propus então que ela escrevesse “gato” o que ela se negou a fazer. Que escrevesse então o que sabia o nome da mãe, o nome do pai e aproveitou o A do Zeca e escreveu as vogais. Quando foi escrever o nome irmão não conseguiu porque quis fazer com letra manuscrita. Então reclamou que não sabia fazer letra emendada. Argumentei que não precisava fazer aquela letra. Poderia fazer separada. Ela contra-argumentou que na escola é letra emendada. Vi logo que o problema da escola era esse ela tinha que fazer letra manuscrita coisa que ela não conseguia face o seu problema. Depois escreveu os números, nomeando-os, e, quando fez o sete o fez virado, apagou e pediu que eu fizesse, pois não era assim.Convidei-a então a desenhar. O traço dela era forte nas linhas retas e fraco nas curvas. Ela explicava tudo que fazia e desenhava. Tem uma nuvem, uma casa, com duas janelas, a antena de televisão e uma estrela.
Quis fazer outro desenho.
Terminada a entrevista, perguntei a ela se queria vir para minha sala de aula. Sim, diz ela. Disse então que teríamos que pedir para a mãe. Fomos ao encontro dos dois, que andavam ansiosos no pátio. Eu disse que a Bruna tinha um pedido a fazer. A mãe de Bruna respondeu: “Já estão os dois transferidos para essa escola, tanto Bruna como o irmão. Andei por aí, conversei coma diretora, minha filha foi tratada como toda criança normal e eles vem pra cá”.
Voltou ao colégio, pediu o histórico, não sei o que falou. Só sei que dias depois a supervisora andava tentando explicar que ninguém havia dito que ela era débil mental, que tudo tinha sido um mal entendido e que os pais não estavam dispostos a adquirir que a filha tinha um problema.
Bruna, a partir do dia seguinte passou a ser minha aluna, e acima de tudo, passou a ser um desafio para mim. Tinha decidido aceitar o desafio e agora tinha que enfrentá-lo.
Eu já estava convencida que toda criança que chega a uma sala de aula tem condições de aprender, mas nunca tinha lidado com um problema como este. Tinha que também me adaptar a Bruna, principalmente tentar reverter o laudo que tinha chegado em minhas mãos.
Naquele dia preparei as crianças para receberem Bruna. Procurei fazê-los ver que somos todos iguais, mas também temos diferenças. Eles teriam que conviver com nossas diferenças e que Bruna era diferente e teria de ser respeitada como tal. Bruna vinha para nossa aula porque queria ser ajudada e nós estaríamos ali para ajudá-la.
No dia seguinte recebi Bruna apresentei-a aos colegas. Ela não teve problema nenhum de adaptação assim como os outros não tiveram em recebê-la. Foi bem aceita.
Como Bruna é muito comunicativa e extrovertida logo estava engajada no grupo.
Agora quem tinha de se adaptar era eu. Ela tinha muita dificuldade motora. Segurar o copo de suco era uma proeza e tanto, pois ele balançava, quando não virava tudo. Um dia ela entra correndo na sala e cai como um chumbo, fazendo um barulhão que assustou todo mundo. Este seria o primeiro de muitos tombos.
Bruna perguntava e conversava muito com as crianças e comigo. Aceitava ajuda dos outros sem problemas. Quando tinha que brigar, brigava parelho com eles. Tinha uma boa resistência à frustração. Quando não conseguia vencer as dificuldades pedia ajuda para os colegas e para mim.
Estava muito confusa com relação as letras misturava todos os tipos e toda hora falava em maiúscula e minúscula. Só conhecia as vogais e o B, o R e o N do seu nome.
Como não sabia traçar letras manuscritas seus trabalhos eram indecifráveis.
Na primeira tentativa de jogo foi um caos. O grupo teve que pacientemente ajudá-la não me deixando intervir quando ela. Quando ela conseguiu ficou feliz.
Bruna aos poucos foi se ajeitando participando de todas atividades e dando conta de tudo o que era proposto do jeito dela.
Levei alguns dias para testá-la, pois não queria escrever, só consegui fazer no dia 13. Primeiro pedi que fizesse um desenho e depois ela aceitou escrever do jeito dela.

Nota-se que Bruna estava muito atrapalhada ainda com os tipos de letras.
Na semana em que veio para minha sala, lá pelo quarto dia, as crianças fizeram desenho em grupo, o que causou um pequeno problema, pois ela fez seu próprio desenho. Tive de contornar a situação com os colegas e eles acabaram aceitando, pois era a primeira vez que ela fazia aquela atividade.
Fizemos um ditado. Quando propus a atividade, ela disse que não sabia. Argumentei que era para fazer como ela sabia, e acabou fazendo junto com os outros.
No dia seguinte, a atividade era um desenho com história. Bruna fez seu desenho e veio me contar a história para que eu escrevesse.
Na semana seguinte, quando chegamos, a sala estava sendo varrida e ficamos fazendo uma atividade no pátio, onde há um semicírculo de cimento no chão e onde as crianças gostam de se equilibrar andando nele. Fomos andar ali e Bruna me pediu que desse a mão para ela. Começou a andar meio desequilibrada e quando se sentiu segura, disse que eu poderia largar a mão: que ela iria sozinha! E foi mesmo, para espanto meu. Depois, tinha de andar de lado na linha. Ela pediu minha mão novamente e quando se sentiu segura, foi sozinha. Naquele momento, constatei que Bruna enfrentava os desafios, demonstrando o melhor desempenho que podia. O certo era que ela não queria deixar de fazer o que os outros faziam.
Mas Bruna continuava muito confusa com as letras cursivas que impuseram a ela. Por mais que eu dissesse que naquela aula podia escrever com letra imprensa maiúscula, ela não conseguia admitir.
As outras crianças mostravam como só escreviam assim, mas não adiantava.
Certo dia, ela me disse que queria ser canhota, que ela queria saber escrever com a mão esquerda. Tive a impressão que, na fantasia dela, com a mão esquerda, ela conseguia fazer a letra emendada que não estava conseguindo com a mão direita. Conversei com ela para sugerir que não era assim tão simples.
O fato é que, aos poucos, Bruna foi crescendo: já não caia tanto na sala, já não virava a merenda, já conseguia colocar suco no copo sem virar na classe.
Ela participava de todas as atividades e continuava confusa em relação às letras. Um mês após ter vindo para minha sala, Bruna continuava escrevendo com letra cursiva, misturando letras e números.
Nota-se a confusão de Bruna quanto ao traçado das letras.Em julho Bruna já conhecia todas as letras e começava a fazer associação letra/som. Foi quando, em agosto, época de testar as crianças novamente, ela escreveu assim:
Parecia que agora Bruna tinha abandonado a fixação de escrever com a letra manuscrita e que, conhecendo as letras, estava silábica. Mas eu continuava cautelosa, fazia testes, elogiava tudo com medo de que não fosse real. Eu acreditava na capacidade dela de aprender, mas volta e meia eu lembrava do laudo e não conseguia juntas as coisas. Foi quando ela fez pela primeira vez um ditado até o fim sem dizer que não sabia, ela estava silábica-alfabética.
Quando olhei o ditado, fiquei eufórica, cumprimentei Bruna, dei um abraço. Quando a mãe veio buscar, contei para ela. Bruna estava feliz.
Ela tinha acompanhamento de uma psicopedagoga cuja linha de trabalho era totalmente oposta à minha. Telefonou-me para saber o que eu tinha feito para Bruna ter crescido tanto, conversei com ela, mas, como falávamos de coisas diferentes, convidei-a para ir à minha sala de aula, o que não aconteceu. Procurei que levassem Bruna para uma psicopedagoga que trabalhasse na linha construtiva, mas não consegui.
A esta altura dos acontecimentos, estavam todos satisfeitos: a família, Bruna, Ana Maria e eu.
Segue a primeira tentativa de escrita de Bruna em 23 de agosto.
À partir daí, Bruna deslanchou e em 24 de agosto, fez seu primeiro ditado com frases, pois fazia as palavras e nas frases se perdiaFoi então que no dia 27 de agosto diante do trabalho de Bruna chamei-a até minha mesa e pedi que lesse as palavras que tinha escrito.
Depois virei a folha e comecei a escrever frases: O pato nada.
Ela leu a frase e a turma toda parou e ficou nos olhando e continuei:
A bola rola
O sapo pula
O rato rói
A Bruna lê
Quando ela leu a última frase, eu esta toda arrepiada. Não sabia se chorava ou ria e a criançada aplaudiu Bruna aos prantos. Ela dava risada feliz. Foi aquela festa. Quando a mãe apareceu na porta a turma gritou: “Adivinha o que aconteceu, a Bruna leu para a Júlia”.
A mãe então me disse que estava desconfiada, pois ela havia lido uma propaganda na rua, mas não quis atrapalhar meu trabalho.

Em setembro, o teste de Bruna era este três meses depois de vir para minha sala, Bruna estava alfabetizada. Chegou ao fim do ano lendo, escrevendo e feliz.
Não pude aprovar Bruna porque ela só se alfabetizou. Ela necessitava ainda desenvolver seu raciocínio lógico-matemático e da escrita manuscrita. Por isso ficou comigo mais um ano.
No início do ano seguinte Bruna já chegou lendo, era a única da sala e isso ajudou muito em sua auto-estima. Ela era quem puxava os outros. No final do ano ela estava pronta para enfrentar o que viesse pela frente.
Hoje freqüenta uma sexta série sem nunca ter rodado. Já volta para casa sozinha de ônibus e toma decisões por si mesma.
No ano seguinte pedi aos pais que levassem Bruna a um Psicólogo de minha confiança, e, fui prontamente atendida.
Disse-me que a menina tinha respondido a todos os testes padrões em Psicologia como débil mental. A essa altura quem entrou em conflito fui eu. Eu não entendia mais nada. Explicou-me ele então, que Bruna tinha um comprometimento sério, mas como eu havia investido nela, ela derrubou os testes, se alfabetizando no período em que uma criança sem comprometimento se alfabetizaria. Ela necessitaria de um acompanhamento psicológico, pois precisaria apoio ao passar pela fase do ‘patinho feio’. Na época não consegui isto dos pais.
Quando Bruna foi para segunda série, eu me contive até onde pude para satisfazer minha curiosidade de ver como ela andava. Um dia não agüentei mais e fui até sua sala. Ela estava copiando algo do quadro no caderno. Quando olhei de perto, tive outra surpresa: um caderno organizado e uma letra linda, perfeita.

Como experiência pessoal o desafio de ser professora de Bruna foi o mais gratificante nestes anos de alfabetizadora.
Na época em que Bruna me foi entregue, eu já tinha me convencido que toda a criança que chega a uma sala de aula tem condições de aprender. Com Bruna só tive esta confirmação. Por esse motivo, quando me perguntam o que fazer com uma criança que não aprende, respondo: não faça nada, porque isso não existe, toda criança aprende, basta acreditar e apostar nela.
Concluindo, volto a enfatizar que toda criança é capaz de aprender, desde que se ofereça a ela um ambiente adequado e amplas oportunidades de aprendizagens. Basta que atendamos às suas necessidades na fase de desenvolvimento em que se encontra, que levemos em conta suas capacidades e habilidades, sua auto-estima e vontade própria como elementos essenciais de aprendizagens e, acima de tudo, não esquecendo que cada criança é uma, devendo ser atendida em suas dificuldades individuais ajudando-a a construir sua própria aprendizagem.
Depoimento dos pais de Bruna
Nossa filha Bruna nasceu em 03/04/1983, de parto induzido prematura de 7 meses, pesando 1,730 kg. Teve paralisia cerebral, ficando com seqüelas. Bruna sempre foi tratada por nós como uma criança normal com um pouco mais de cuidados. Sempre acompanhada por Neurologista, Fisioterapeuta, Oftalmologista e um Ortopedista. Apesar de suas dificuldades motora e de aprendizagem, fez uma boa pré-escola.
Aos sete anos matriculamos Bruna na 1ª série de uma escola particular. Aí então começou nossa agonia. Bruna não acompanhou a turma e a professora juntamente com a orientadora após dois meses de aulas encaminhou-a a um Psicólogo ligado à instituição à qual a escola pertencia. Após uma e somente uma avaliação, diagnosticou que Bruna não se alfabetizaria e que ela não tinha condições nem inteligência para freqüentar uma escola normal. Deixou-nos desolados, mas não vencidos.
Pessoas de nossas relações compartilharam conosco da nossa preocupação. Foi então que uma amiga que era na época professora de uma escola pública nos aconselhou procurar a professora Maria Júlia. Fomos então, procurá-la, explicamos tudo o que até então tinha ocorrido e ela pediu que levássemos a Bruna para conhecê-la e avaliá-la. Após as entrevistas transferimos a menina para a turma de Maria Júlia.
Ela recebeu Bruna com maior carinho e dedicação. A menina começou a progredir lentamente e, para nossa surpresa e alegria ao término do ano Bruna estava alfabetizada. No ano seguinte Bruna continuou com Maria Júlia, pois apesar de alfabetizada não tinha avançado em outras áreas como matemática.
Sua alfabetização nós atribuímos à qualificação, dedicação e método aplicado pela professora Maria Júlia. É uma verdadeira profissional de ensino.
Hoje Bruna está na 6ª série com 13 anos, na mesma escola, relaciona-se bem com todos os colegas e tem o maior carinho da diretora e todos os professores, isto tudo graças a deus e à nossa amiga que colocou no nosso caminho a professora Maria Júlia.
Todos nós apostamos na capacidade e no potencial de Bruna. Ela é muito esforçada.
Queremos deixar claro nesse depoimento que Bruna evoluiu graças à competência, dedicação e amor da professora Maria Júlia."
José Carlos Antunes 13/04/96
CANIBAL, Maria Júlia Berta. Revista do GEEMPA N° 4 – Julho/1996 – Porto Alegre.
Nenhum comentário:
Postar um comentário